URBE LATAM

Mapeando o cuidado

Elena Veríssimo, Alessandra Figueiredo, Samara Franco – Novembro de 2021

Morro do Preventório
A URBELatam, uma parceria de três universidades, está trabalhando com o Banco Preventório para mapear a comunidade do Morro do Preventório próximo ao Rio de Janeiro. O mapa permitirá que o banco amplie seus serviços à comunidade e sirva de modelo e inspiração para outras favelas.

Somos três mulheres que se encontraram com um propósito: mapear o Morro do Preventório, uma das favelas da cidade de Niterói, Rio de Janeiro, Brasil.

Essa tarefa surgiu de uma demanda do projeto URBELatam, uma iniciativa de três instituições de ensino superior: a Universidade de Glasgow na Escócia, a Universidade Federal do Rio de Janeiro no Brasil e a Universidade de Antioquia na Colômbia. Uma equipe de pesquisa multidisciplinar se reuniu para produzir dados em cooperação com moradores de favelas para redução de risco de desastres, planejamento e desenvolvimento local.causa de um propósito: mapear o Morro do Preventório, uma das favelas da cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro, Brasil. 

A URBELatam é apoiada pelo Banco Comunitário do Preventório, associação comunitária que atua no Morro do Preventório desde 2011. Hoje, apoia não só o Morro do Preventório, mas também as comunidades do entorno, atendendo mais de 20 mil pessoas. Seu principal objetivo é promover o desenvolvimento local por meio de serviços financeiros, como microcrédito, serviços bancários e consultoria para empresas locais.

A Necessidade de Mapeamento de Favelas

A necessidade de mapear a comunidade decorre da falta de dados oficiais sobre o território. O problema específico inicialmente apresentado a nós por João Porto de Albuquerque, pesquisador principal do URBELatam, foi o fato de o Morro do Preventório estar mal mapeado no OpenStreetMap. Um dos muitos desafios do nosso projeto foi, e ainda é, construir um diálogo entre pessoas que produzem mapas de dentro das comunidades vivas com pessoas que produzem mapas remotamente.

Há um esforço para que essas regiões sejam literalmente apagadas de mapas altamente acessíveis. No Brasil, essas lacunas são relativamente comuns, pois as instituições oficiais muitas vezes consideram as favelas “inseguras”, usando isso como desculpa para não fornecer serviços essenciais e geração de dados. Comparando as favelas com outras áreas da cidade, observamos que elas não são retratadas de forma acurada nas plataformas de serviços de pesquisa e visualização de mapas, o que causa certo estranhamento. Essa exclusão faz com que a comunidade pareça não fazer parte de onde ela pertence.

Vimos isso acontecer em 2013, antes da Copa do Mundo de 2014 no Brasil e dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio, quando a prefeitura do Rio de Janeiro pediu ao Google para remover a palavra “favela” de seus mapas. Essa mudança de nome das favelas cria a sensação de que essas áreas não contêm nada de interesse, mesmo em favelas onde a população ultrapassa 100.000 habitantes.

Paulinho Otaviano, morador e guia local em Santa Marta, disse: “Para mim, o fato de não estar no mapa, cria uma sensação de exclusão, que não fazemos parte da cidade, que não fazemos parte do roteiro tradicional. ”, em entrevista ao Todo Mapa Tem Um Discurso.

Uma das autoras, Alessandra Figueiredo (acima à direita), com uma colega de equipe, a Luíza, (acima à esquerda) e uma moradora da comunidade, a Hosana, (ao meio)

O Impacto do Mapeamento

Considerando sua alta densidade populacional, é de extrema importância mapear essas áreas invisíveis. Um mapa fiel fornece dados precisos para os serviços e nos faz ser reconhecidos pelo que somos: um território relevante para nossa cidade, não apenas economicamente, mas também socialmente.

Para entender melhor a comunidade nós mapeamos no OpenStreetMap (OSM). Com meses de trabalho de campo, colocamos no mapa mais de 4.000 casas da favela.

Ao longo de oito meses, mapeamos todo o território do Morro do Preventório. Geramos dados de ruas, becos, comércios, prédios públicos, casas, etc. através de extenso trabalho de campo entre pesquisadores e moradores.

O mapeamento traz benefícios para os próprios moradores, pois nós e o Banco Comunitário Preventório podemos utilizá-lo para identificar as necessidades, ausências e potencialidades da comunidade. A partir dos dados gerados, é possível ter um entendimento completo dos serviços prestados e dos empreendimentos da comunidade. Dessa forma, o Banco consegue analisar com maior profundidade o potencial de novos serviços sociais e também desenvolver iniciativas de fomento à economia local, como a expansão de seus programas de microcrédito.

Um desses projetos foi o mapeamento de artistas locais. Muitos artistas das favelas não têm financiamento para continuar seu trabalho. O Banco, com seu programa de microcrédito, os auxilia financeiramente, oferecendo empréstimos com juros mais baixos do que os bancos tradicionais. Um impacto direto disso foi visto em Dezembro de 2021 onde foi realizado um festival apenas com artistas do Morro do Preventório, evento que só foi possível graças ao mapeamento cultural.

Captura de tela do Morro do Preventório no OpenStreetMap ©Colaboradores de OpenStreetMap.

Metodologia de Mapeamento

Começar este trabalho do zero, sem nenhum dado prévio, foi um desafio.

Enquanto aprendíamos a trabalhar com o HOT Tasking Manager e OSM, criamos uma forma mais artesanal de mapeamento, usando as subdivisões HOT como base. A partir das imagens e do conhecimento prévio dos moradores, foi possível catalogar os diferentes tipos de edificações caminhando pela comunidade ou mesmo pela memória dos cartógrafos locais.

Outra plataforma muito importante para o nosso trabalho foi o KOBO Collect, uma ferramenta feita para ajudar no trabalho de campo, onde você pode montar formulários com os dados que deseja coletar e depois respondê-los offline e no celular. Isso nos ajudou muito na coleta de dados de vulnerabilidade física.

Nesta jornada encontramos vários desafios, incluindo a identificação de áreas de lazer. Essas áreas geralmente são reconhecidas por seus papéis claros e definidos. No entanto, em zonas mais periféricas, é normal a utilização de espaços públicos sem uma finalidade definida: por exemplo, um terreno baldio pode ser utilizado para diversos fins recreativos, como local de convívio para as crianças brincarem, zona de prática desportiva, recinto de para festas da comunidade, etc.

Vista do mirante da Bela Vista, um dos mirantes do Morro do Preventório

Compartilhamento de Conhecimento

Do desafio de aplicar nosso trabalho surgiu a necessidade de montar uma oficina de mapeamento comunitário para repassar os conhecimentos adquiridos durante nossa jornada.

A solicitação veio do projeto Dicionário Favela ‘Marielle Franco’, que usa a Wikipédia como tecnologia para preservar o conhecimento das favelas. As semelhanças entre mapear e escrever um verbete — por exemplo, o uso de tecnologias digitais de código aberto — levaram a um convite para ministrar a oficina, a ser realizada em três encontros de duas horas cada.

A primeira barreira que encontramos depois de decidir participar foi como auto validar nosso trabalho. Havia incerteza sobre o método experimental que utilizamos, então a formalização do conhecimento implícito e organizado surgiu como uma complicação para o grupo. A oportunidade de montar o curso para um público interessado foi a validação que precisávamos.

A decisão de fazer o workshop representou nosso desejo de compartilhar o conhecimento que já havíamos acumulado até então. Começamos a mapear sem muita confiança. Com o tempo, descobrimos todo o potencial que o mapeamento comunitário desperta, então não havia nada mais justo do que compartilhá-lo com outras pessoas – grupos, assim como nós, que fazem trabalhos comunitários em outras favelas.

A partir daí, o desafio passou a ser traduzir o que estávamos fazendo de forma simples e didática, menos rígida e acadêmica e mais acessível. Queríamos algo que qualquer um pudesse entender. Afinal, quando a linguagem não é inclusiva e compreensível, acaba sendo segregadora e desanimadora para as pessoas envolvidas, tornando o processo de tornar-se mapeador mais distante e difícil.

Lá, compartilhamos nossos conhecimentos e nossas motivações e, em meio a essa troca, acabamos descobrindo novas motivações e novos objetivos. Isso gerou o desejo de que a semente que plantamos em outros agentes comunitários crescesse e florescesse, fazendo com que cada favela do Rio de Janeiro ganhasse vida por meio de mapas feitos por seus próprios moradores.

As autoras da esquerda para a direita: Alessandra Figueiredo, Elena Veríssimo e Samara Franco